terça-feira, 6 de novembro de 2012

DEIXADOS PRA TRÁS




Remeto-me ao passado, e recordo-me de um dia chuvoso, eu deveria ter entre 4, 5 anos, e 
poucas são as vezes em que me vem a memória  lembranças de  coisas de criança, na maioria da vezes são como trailers de filmes, passam apenas senas rápidas em minha mente, ligeiras como feixes de luzes. Mas essa sena hoje não sai de minha mente, e pude vislumbrar-me  a porta de casa vendo meu irmão que é apenas 3 anos mas velho que eu, enfurecido na chuva a martelar seu velocípede. E lá estava ele, suas lagrimas se misturavam com a água que incessantemente jorrava do céu. E sem parar martelava o pobre brinquedo. Nossos pais tinham acabado de se separar, e ele não poderia levar o brinquedo para casa de nossos avós maternos, pois iriamos de trem. Martelou-o até que nossa mãe com uma palmada o tirou da chuva. 
Só que não era apenas nossos brinquedos que estavam ficando para trás, era aquilo que se chamam de lar, família, nossas memórias estavam sendo deixadas também, aquilo ao qual você se baseia até chegar a vida adulta.  E lá fomos rumo a Magé. Não recordo-me de como chegamos, nem de termos nos despedido de nossa mãe que ali nos deixou, e tudo que me lembro se baseia apenas em mim. Eu no colo do meu avô. Eu no milharal, no balanço do quintal. Das plantações de cana, do pé de jabuticaba, amora, do pé de orucum.                                                                           
Recordo-me do meu querido pé de goiaba, quantos tombos infinitos, ai aqueles galhos podres, quantas saudades. Lembro-me de muito chorar quando minha doce vovozinha retirou uma galinha do galinheiro para degolar. Dizem na roça que se você sentir pena, o bichinho demora a morrer. Não é que a danada saiu correndo sem cabeça! Coisas da roça. Lembro-me do leiteiro que passava com sua carroça, e lá ia eu correndo pra comprar leite, fresquinho, tirado na hora. Ouve um dia em que eu e meus irmãos corremos feito doidos da chuva que avistamos vir de longe sendo trazida pela nuvem, que coisa linda, mas não há quem consiga escapar da natureza. O cheirinho de chuva!  Lembro-me do assovio da vovó nos chamando, o doce cheiro de café! Vida na roça é assim; Primos, amigos, bons vizinhos cujo quintais tinham seus portões aberto para dentro do quintal de nossos avós, para que pudéssemos brincar sem ter que passar pela rua.
   Doce vida na roça.

E um belo dia. Bum! Tudo desmorona. Adultos! Como podem ser tão indecisos? Será que não pensam que suas decisões também influenciam na vida dos pequenos?  Depois de 5 anos, reataram o casamento. E lá se foi outro mundo por água abaixo. Mas dessa despedida me recordo. Vovó na estação do trem chorando e acenando, vovô não quis ir. E enquanto acenava ia deixando para trás algo mas que brinquedos, estava deixando meus sentimentos.        
Vida dura na cidade grande! Vida dura.
                                  











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